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Plantas nativas e exóticas no paisagismo

March 29, 2018

O tema é polêmico. Hoje vamos discutir sobre o uso de espécies nativas e exóticas no paisagismo ecológico.

Começando do começo: plantas nativas são aquelas de ocorrência local ao ambiente em que se pensa o plantio. Isso significa que a espécie precisa ser originária daquele lugar e deve (ou deveria) ocorrer espontaneamente na região, sem a intervenção humana. Uma espécie exótica é aquela que não ocorre naturalmente no local de plantio, sendo originada de outro ecossistema.

 

O paisagismo ecológico é a criação de espaços ajardinados com a função, além da estética e social, de promover o enriquecimento ambiental e/ou restauração do ecossistema em que está inserido. 

 

O uso indiscriminado de espécies exóticas em um jardim pode proporcionar a criação de um espaço com baixa interação com o ecossistema circundante, além de prestar um serviço ambiental reduzido, quando comparado com uma vegetação nativa. As plantas nativas apresentam uma profunda co-evolução com a fauna local, além de uma relação íntima com os microrganismos do solo e com plantas vizinhas, atuando como âncoras de um equilíbrio interdependente.

 

Então isso significa que o paisagismo ecológico deve banir o uso de espécies exóticas e utilizar apenas espécies nativas? Vamos agora apresentar nosso posicionamento.

 

Usar uma lista exclusiva de plantas nativas é o cenário ideal. Mas quem se propõe a trabalhar com paisagismo ecológico muitas vezes se depara com a falta de plantas nativas regionais à venda no mercado. Essa deficiência do mercado em produzir e comercializar espécies nativas regionais (majoritariamente plantas herbáceas e arbustivas) reflete em um pequeno número de opções viáveis para compor o paisagismo (Foto abaixo: canteiro de vedélias - Sphagneticola trilobata - uma espécie florífera nativa do Brasil, adorada por abelhas e com ampla distribuição pelo país).

 

Por mais que ainda seja possível lançar mão de espécies nativas do Brasil, uma espécie de ocorrência natural no estado do Ceará não poderá ser considerada nativa do estado de Santa Catarina, por exemplo.

 

Mas o paisagismo ecológico não considera apenas o centro de origem das plantas selecionadas. O paisagismo ecológico também considera o serviço ambiental e a interação das plantas com o ecossistema em que o jardim está inserido (assim como na permacultura, em que tudo deve possuir mais de uma função).

 

Uma das principais interações a considerar é o envolvimento das plantas com polinizadores. Abelhas, borboletas, pássaros e morcegos... Como esses visitantes tão importantes para o jardim serão “chamados” pela vegetação? E é aí que a vegetação exótica começa a se mostrar como opção viável.

 

Plantas originárias de outros ecossistemas podem, muitas vezes, atuar como chamarizes para polinizadores, o que faz do jardim um ponto de visitação constante, até o momento em que a vegetação nativa floresce e se beneficia desses polinizadores “fregueses”. Essas espécies exóticas amparam os polinizadores, principalmente em áreas muito urbanizadas, garantindo sua sobreviência. De todo modo, essa vegetação exótica deve contemplar características fundamentais para serem aceitas no paisagismo ecológico (Foto: abelha nativa Euglossini - Abelha das orquídeas - atraída pela zínia, espécie de flor exótica. Créditos da foto: Flávio Cruvinel Brandão) .

 

Plantas exóticas devem, como foi dito, ser atrativas aos polinizadores. É comum, porém, que muitas plantas "estrangeiras" sejam vistas com pouco interesse por polinizadores. Além de atrativas, plantas exóticas não podem ser agressivas, ou seja, não devem se propagar espontaneamente e devem apresentar fácil controle. Casos populares de plantas agressivas são as invasões da Mata Atlântica pela palmeira seafórtia (Archontophoenix cunninghamiana), que aparece na foto ao lado dominando a vista de um trecho de Mata Atlântica na cidade de São Paulo, e pelo papel-de-arroz (Tetrapanax papyriferus) que competem com a vegetação nativa e degradam a biodiversidade da floresta. Definitivamente esse não é um comportamento que queremos para as plantas exóticas que colocamos em nossos jardins.

 

No contexto do paisagismo ecológico, as plantas exóticas devem apresentar caráter de apoio, apenas para adicionar funções complementares ao jardim ou um apelo estético bastante específico. Todo o restante do jardim deve proporcionar a regeneração ecossistêmica em que está inserido (Na foto ao lado: quaresmeira - Pleroma granulosum - árvore nativa do litoral norte de São Paulo e Rio de Janeiro, muito utilizada na arborização urbana de grande parte do sudeste brasileiro).

 

Por fim percebemos que plantas exóticas não são apenas espécies chinesas, africanas, europeias, australianas, mas também amazônicas, pantaneiras, dos pampas... quando estão inseridas fora de seus habitats naturais. Claro que entre as espécies exóticas é interessante considerar aquelas do próprio território brasileiro, mas quando falamos de plantas nativas regionais, o detalhe é mais complexo.

 

Um jardim, além de belo, deve ser funcional. E é pensando na funcionalidade ecossistêmica que caminhamos para a regeneração ambiental de nossas cidades. Ao mesmo tempo, devemos incentivar produtores a cultivar espécies nativas regionais, para ampliar a gama de opções ao desenharmos um espaço totalmente engajado com natureza circundante.

 

Vamos plantar!

 

Tem alguma dúvida ou sugestão? Entre em contato, estamos à disposição para lhe receber.

 

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Foto de capa: CANDICE CANDICE, from Pixabay

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