Os Agrotóxicos na Jardinagem

Já falamos um pouco sobre isso em outro artigo, mas agora quero bater um papo com você, leitor(a), sobre o uso de agrotóxicos na jardinagem.

Antes de tudo, quero colocar meu ponto de vista em relação ao uso de agrotóxicos. Eu sou um grande defensor da agricultura e jardinagem orgânicas, do uso de estratégias ecológicas e “culturais” (estratégias com base em técnicas de cultivo) para controle de pragas e doenças. Mas vejo que muitas vezes, devido ao fato de o jardim ser um ambiente artificial - ou seja, criado pelo ser humano - é necessário considerar o uso de agrotóxicos. Há pragas e doenças que podem causar grandes danos no jardim e que o controle rápido e eficaz só pode ser feito através do uso de agrotóxicos. Mas esse meu entendimento do manejo do jardim não é passe livre para o uso indiscriminado de agrotóxicos. Há regras com relação ao uso e elas existem para proporcionar segurança para quem aplica e para os frequentadores/ habitantes do jardim.

INTOXICAÇÃO O uso incorreto de agroquímicos já provocou milhares de acidentes, e, segundo matéria publicada pela CONITEC (Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias do SUS), foram 416 mortes causadas por intoxicação por agrotóxicos em 2016. Ou seja, praticamente uma morte por dia durante o ano todo. E estima-se que milhares de outras pessoas apresentaram sintomas por intoxicação com fraqueza, falta de ar e sudorese. Um dos maiores desafios do diagnóstico e tratamento do envenenamento por agrotóxicos é a exposição contínua a pequenas doses dos produtos, que muitas vezes não causam sintomas perceptíveis, mas expõe o corpo a problemas que irão se expressas em longo prazo. Segundo pesquisa publicada na revista Ciência e Saúde Coletiva, em 2007, são registrados apenas os casos mais agudos e mais graves de intoxicação por agrotóxicos.

LEGISLAÇÃO Segundo a Anvisa, para que um agrotóxico possa ser aplicado por uma pessoa leiga, por um jardineiro ou por paisagista sem especialidade em tratamento fitossanitário, só é permitido o uso de produtos de venda livre, registrados para a categoria JARDINAGEM AMADORA, que são produtos com menor concentração de eficácia comprovada e de menor volume. Há produtos registrados para uso restrito de empresas especializadas, que possuem registros específicos para aquisição, manuseio e aplicação de agrotóxicos. Deste modo, a aplicação de agrotóxicos passa a ter maior controle e regulação, para evitar acidentes. Outra situação é o uso de agrotóxicos em vegetação diferente do registro. Explicando melhor, para que todo agrotóxico seja liberado no mercado, ele deve ser testado em uma vegetação específica, para um alvo específico. Tem agrotóxico para uso em batata, em morango, em arroz, em soja. Assim, quando o registro é liberado, a documentação é feita com base na vegetação para a qual o produto foi desenvolvido. Não é permitido o uso de agrotóxicos em vegetação diferente daquela para qual o produto foi registrado. Para o uso de agrotóxicos que não sejam de venda livre para jardinagem amadora, é obrigatório o RECEITUÁRIO AGRONÔMICO, ou seja, um documento devidamente registrado no CREA que autorize e recomende o uso de produtos específicos. Segundo a EMBRAPA (citando a lei dos agrotóxicos - lei federal 7802/89), haverá penalidade para: “ • o profissional, quando comprovada receita errada, displicente ou indevida (caso de imperícia, imprudência ou negligência). • o usuário ou o prestador de serviços, quando não obedecer o receituário. o comerciante que vender o produto sem receituário próprio ou em desacordo com a receita. o registrante, isto é, aquele que tiver feito o registro do produto, que, por dolo ou culpa, omitir informações ou fornecer informações incorretas; • o produtor que produzir mercadorias em desacordo com as especificações constantes do registro do produto, do rótulo, da bula, do folheto ou da propaganda. • o empregador que não fornecer equipamentos adequados e não fizer a sua manutenção, necessários à proteção da saúde dos trabalhadores ou não fornecer os equipamentos necessários à produção, distribuição e aplicação dos produtos.” Os cuidados com o uso de agrotóxicos não são apenas no momento da escolha e no momento da aplicação do produto. É fundamental garantir um período de isolamento de segurança da área, que pode durar tempos diferentes com base no tipo e concentração do produto. Produtos agrotóxicos que podem ser carregados pelo vento devem ser aplicados com ainda maior cuidado. Esse carregamento pelo vento, chamado de deriva, pode levar o produto para áreas de permanência ou circulação de pessoas.

CONTAMINAÇÃO AMBIENTAL Além dos riscos à saúde, os agrotóxicos também oferecem riscos ambientais. Diversas pesquisas sobre qualidade de águas no país apontam presença de agrotóxicos em água destinada a consumo. Esses agrotóxicos se tornam contaminantes quando são “lavados” pela água da chuva ou irrigação e são carregados para corpos d’água ou lençol freático. Agrotóxicos também são responsáveis pela morte de animais polarizadores, aves e outros animais que possam se alimentar ou transitar em regiões tratadas com os produtos. Pássaros que se alimentam de frutos e sementes de plantas tratadas com agrotóxicos sistêmicos ou mesmo de contato podem morrer intoxicados.

Segundo artigo publicado pela Revista Nature, citado pela BBC Brasil, pássaros canoros (com habilidade de cantar) perdem senso de direção e peso ao se alimentarem por apenas 3 dias de sementes em campo de canola tratadas com agrotóxico voltado para a cultura. Isso mostra que, ao utilizarmos agrotóxicos, também precisamos compreender a relação da fauna com a vegetação que estamos tratando.

Temos que derrubar a ideia de que agrotóxico é o “remédio da planta”. Agrotóxico é produto químico, oferece risco e possui diversos tipos de regulação para evitar intoxicações e danos ambientais. Também precisamos repensar a visão de que “inseto bom é inseto morto”. Para isso existem conceitos como nível crítico para controle.

CONSIDERAÇÕES FINAIS O uso de agrotóxico de maneira inteligente faz parte de um conjunto de medidas chamado de “manejo integrado de pragas e doenças” e é uma das últimas alternativas de controle. O uso leviano de agrotóxicos como solução simples e imediata adiciona risco ao jardim. Busque sempre um(a) agrônomo(a) para se informar sobre uso de agrotóxicos. Fuja de recomendações de “balcão” e entenda que agrotóxicos possuem riscos associados e responsabilidade legal. Um agrotóxico de uso restrito indicado pelo “amigo” ou pelo jardineiro pode funcionar, mas às custas de riscos de intoxicação, contaminação e infração da legislação. Tudo que envolve risco necessita de critério técnico. Faça jardinagem consciente.

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