Jardins sem agrotóxicos

O artigo de hoje está mais com cara de bate-papo do que em um formato técnico propriamente dito. Isso porque o assunto é sem dúvidas polêmico, e vou colocar meus pontos de vista de forma quase pessoal.

Para criar um contexto, vou contar um pouco do meu background: sou vegetariano há quase 15 anos, fui integrante do grupo de estudos em agroecologia na graduação e sou defensor de tudo o que é orgânico. Mas qual será o meu posicionamento com relação aos agrotóxicos? Aliás, agroquímicos, para ser tecnicamente correto. Uma vez me perguntaram: você é a favor do uso de agrotóxicos? Adivinhem minha resposta... Eu disse "sim". Praticamente não há como se produzir uma monocultura numa grande área sem o uso de agrotóxicos. Simples assim (há exceções muito pontuais). Essas grandes áreas produtivas são agroecossistemas tão desequilibrados que necessitam quase obrigatoriamente de intervenção química para manter o mínimo de produtividade aceitável. O que penso ser necessário mudar é o sistema de produção. Uma unidade produtiva menor, familiar, e biodiversa, quase (ou completamente) se desobriga do uso de agrotóxicos quando são utilizadas as técnicas adequadas de manejo. E o que é o jardim se não um espaço (geralmente) reduzido, familiar e biodiverso? Isso significa que nunca poderemos lançar mão de agroquímicos para solucionar um problema complexo no jardim? Também não. Nem tanto céu, nem tanta terra. Há situações tão problemáticas que os agroquímicos são o único jeito. É preciso ter muito critério.

E quando que os agroquímicos se fazem necessários? Quando há desequilíbrio. As plantas sabem e conseguem cuidar de si mesmas, e só ficam suscetíveis a uma praga ou doença quando alguma coisa não vai bem. Pode ser o ecossistema, a nutrição da planta, o clima, a luminosidade, a ausência de predadores no jardim. Já falamos disso no artigo sobre Como Diagnosticar Problemas no Jardim. Se perdeu, leia aqui! Adubação orgânica com frequência, solo saudável, luminosidade adequada, podas adequadas, abrigo para predadores, e biodiversidade são práticas que reduzem muito (muito mesmo) a necessidade de agroquímicos no jardim. Vou listar as razões pelas quais eu evito ao máximo utilizar agroquímicos na jardinagem.

Legislação Há uma restrição muito grave: é proibido o uso de agroquímicos em culturas para as quais os produtos não foram registrados. Isso significa que se o agroquímico A foi criado e registrado para ser usado na cultura X, ele jamais poderá ser utilizado na cultura Y ou Z. Produtos registrados para controlar a mosca branca da soja não podem ser usados para a mosca branca da Ficus benjamina, a não ser que também haja o registro. Isso dificulta muito o uso de agroquímicos na jardinagem, uma vez que um jardim é feito de diferentes espécies de plantas e que muitas vezes compartilham a mesma praga ou doença. Essa proibição não é descabida. Cada espécie de planta reage de maneira diferente a uma concentração e tipo de produto químico, necessitando de estudos muito específicos.

Impacto colateral Um outro fator sobre o uso de agroquímicos é o impacto colateral. Esse aspecto é mais presente em inseticidas e herbicidas, em que a aplicação de um produto pode causar danos à outros seres além daqueles que queremos controlar. A aplicação de um inseticida para controlar lagartas, besouros, ou cigarrinhas, por exemplo, pode afetar toda uma comunidade de polinizadores, como as abelhas. Esse impacto colateral é responsável por grande perda de biodiversidade. Substâncias químicas residuais podem também permanecer no ambiente por longos períodos (meia-vida longa), afetando espécies mesmo depois de muito tempo de aplicação. Outros problemas como lixiviação e contaminação de lençóis freáticos e corpos d'água também podem estar presentes.

Pressão de seleção

O uso indiscriminado de agrotóxicos também aumenta a pressão de seleção de insetos e daninhas resistentes aos produtos. De maneira muito simplificada, funciona assim: Quando uma população de uma determinada praga é dizimada pelo uso de agrotóxicos, há um pequeno percentual de sobrevivência, de indivíduos resistentes àqueles produtos. Esses indivíduos resistentes se reproduzem, gerando uma nova população de pragas resistentes, e assim é necessário aumentar a dose e/ou a potência do agrotóxico para dar conta de controlar a praga. E assim por diante. É uma corrida sem fim.

Riscos à saúde

Muitos agroquímicos possuem substâncias químicas agressivas ao meio ambiente por justamente prejudicarem o desenvolvimento de seres vivos. Há diferentes tipos de moléculas, que atuam em diferentes partes do organismo. Quando o produto possui baixa especificidade de atuação, ou seja, age em uma grande gama de espécies, seu potencial de dano é maior. Há inclusive agroquímicos que são cumulativos na cadeia alimentar, num processo chamado de bioacumulação. Os agroquímicos podem causar mutações, cânceres, infertilidade, alterações de humor, entre outros problemas já relacionados cientificamente.

É importante ressaltar que quando são aplicados corretamente, os riscos relacionados aos agroquímicos tornam-se muito reduzidos. Embora ainda presentes (e muitas vezes negligenciados), os riscos de aplicação de agroquímicos são reduzidos também pelo nível de tecnologia envolvida. De todo modo é necessário mudar a postura com relação ao agrotóxico. Esses produtos são última solução para um problema, e não a primeira alternativa. Assim como não tomamos antibióticos e morfina para acabar com uma simples dor de cabeça. Considerando todas as informações que abordamos, vamos às dicas de como manter um jardim sem precisar de agroquímicos:

Forneça as condições ambientais adequadas para as suas plantas

O melhor defensivo contra pragas e doenças é uma planta saudável. Níveis adequados de nutrientes, água, luz e biodiversidade são os melhores remédios. Certifique-se de garantir esses elementos para as plantas. Realize boas praticas de tratos culturais

Tratos culturais são práticas de manejo do jardim. Um plantio feito corretamente, uma poda criteriosa, um transplante, adubação, aeração do solo, limpeza de ferramentas, tudo isso auxilia no crescimento saudável do jardim. Faça o controle de pragas e doenças com receitas orgânicas Há diversas receitas orgânicas consagradas no controle de pragas e doenças, com substâncias simples e de baixíssimo impacto ambiental. Há diversos materiais online que disponibilizam dicas de produtos seguros para aplicar no jardim. Conhecimento é a melhor ponte para um jardim equilibrado.

E temos que ter em mente que é preciso aguentar um punhado de lagartas para ter borboletas no jardim.

Jardins são os espaços que traduzem conceitos de liberdade, diversidade e democracia. É um espaço de convivência entre diversas formas de vida, cada uma com seu tempo e temperamento únicos, que florescem quando compreendidas e cuidadas com carinho. Que nossos jardins sejam sempre espaços de segurança para o bem-estar.

#paisagismopodesalvaromundo

Gabriel Kehdi

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